AS NETAS DO COMENDADOR

ESTOU COLOCANDO UM CONTOZINHO MEU…GOSTO DELE. PARTE DO MEU, AINDA NÃO PUBLICADO, “A VIDA NÃO É UMA COMÉDIA”

AS NETAS DO COMENDADOR

O Comendador não estava mais suportando o barulho que suas netas estavam fazendo. Ele pensara que ficaria sozinho o verão todo. Curtindo o seu terraço ensolarado, o seu velho scoth e o seu incrível veleiro. Pois, acreditara que elas estariam esquiando na Europa ou fazendo compras em Miami. Mas, enganara-se… um dia, pela manhã, o tempo fechou e do nada uma tempestade de verão desabou sobre a cidade. Depois da estiagem, não veio a tal bonança; e sim, as suas sete netas de uma vez só. Com suas mochilas, sacolas e intermináveis malas.

Agora, lá estavam elas, com seus curtos biquínis, quase a beira da imoralidade, atrapalhando o descanso vespertino do Comendador. Como um furacão, elas invadem o sacrossanto terraço. E sem um pingo de respeito, balança a rede do Comendador:

– Vô, estamos querendo velejar. Manda o Candinho arrumar o veleiro pra gente. Aquele chato nos disse que só sai com o barco, com uma ordem escrita do você. – reclamou a Ritinha
– Não!! o VELEIRO está com uns probleminhas…
– Então, pode ir mandando arrumar… Prometi para o Tico que nós iríamos velejar. E como o senhor mesmo fala: ”Promessa e dívida” – falou a Cláudia.
– Vamos ver… vamos ver – respondeu o Comendador já meio irritado.
– Vô, nós vamos dar uma festinha na Sexta. Na verdade vai ser um lual. Só vamos usar o deck, a piscina e o terraço. – avisou Márcia.
– O terraço não!!!… não. De jeito nenhum. Aliás nada de festa, lual ou sei lá o que…
– Eeeeeee vô, já avisamos p’ra todo mundo, e agora não vai dar para cancelar não. O nosso lual vai acontecer de qualquer jeito. Vai chamar: Lual das netas do Comendador, que tal vôzinho? – perguntou Patrícia com um ar de arrogância.
– Vamos ver… vamos ver… vamos ver. – respondeu o pobre do Comendador, levantado-se da rede e indo trancar-se no seu quarto, já totalmente irritado com as netas.

Já no dia seguinte, no café da manhã, as netas receberam o estatuto da festa. Um conjunto de normas e regras que elas teriam de seguir para acontecer o lual. E junto do estatuto da festa ,também veio as regras para o uso racional do veleiro. Leram as regras como se fossem um livro de piadas, pois davam boas gargalhadas a cada item lido. Foi Clara quem primeira reagiu negativamente ao conjunto de normas:

– Que isso… que isso. O Velho pirou de vez. Ele querer que lual comece as quatro e meia e termine as dez em ponto. Não!!! um lual de verdade começa à noite e não tem hora para acabar.
– O coitado pirou mesmo – concordou Tabhata – Aqui fala que só podemos servir refresco e/ou refrigerante no lual!!
– Olha aqui no item do veleiro: Só podemos usar o veleiro atracado no píer. E não podemos levar companhia masculina para o interior das cabines. Isso foi comigo… Só porque eu comentei que convidei o Tico para velejamos – reclamou Cláudia.
– Eu como a mais velha peço a interdição do velhinho… urgente. Quem for a favor levanta a mão. – propôs Márcia.

Assim, todas, quase, juntas levantaram as mãos. Então, rasgaram as regras, falsificaram um salvo-conduto para uso de veleiro e decidiram trancar o pobre do Comendador no quarto, no dia do lual. Com tudo já resolvi e programado, foram curtir o dia ensolarado velejando pelas praias, ilhas e restingas da cidade; cada qual com o seu namorado do momento. No dia do Lual, Patrícia entra, discretamente, nos aposentos o velho e retira o telefone, coloca tranca na porta da varanda e na janela do banheiro e abastece o quarto, que será o cárcere do Comendador, com água e biscoito Maria.

Já, a tardinha, Tabhata verifica que o vô estava repousando no quarto e com muito discrição e desenvoltura tranca a porta por fora e retira a chave da fechadura. Aí, foi só esperar os convivas chegarem para dar inicio ao Lual das Netas do Comendador. Foi uma festa de arromba, de tudo aconteceu, o deck da piscina, as salas e o terraços ficaram lotados… parecia que toda a cidade estava lá. Música no último volume e bebida rolando a noite toda, Ritinha e Márcia liberaram, o para consumo da malta, garrafas e garrafas do precioso scoth “Blue Label”, que o velhinho guardava no fundo falso do barzinho… E o velho Comendador, trancado no quarto, muito irritado, com ódio saído pelos poros, jurava a mais terrível vingança.

Foi o chato do Cadinho que abriu a porta de cárcere de Comendador, esse, alias, saiu do quarto como uma fera enjaulada, ferida e esfomeada. Jurava vingança… jura de morte uma a uma das suas netas… jura, até mesmo, matar os pais de cada uma delas. E no andar inferior da casa, a sua cólera aumentou… as salas de jantar e de estar estavam simplesmente destruídas. Havia copos, restos de comida, garrafas vazias, caco de vidro e vômitos por todas as salas. O deck da piscina não está em situação melhor… havia até cadeiras boiando na piscina. Mas foi na seu querido terraço, que o pobre Comendador soltou um gritou ensandecido, pois o terraço está parecendo, literalmente, um campo de guerras. Ele não estava acreditando no que via… e foi, justamente, no terraço devastado que ele começou arquitetar o plano de vingança… de contra-ataque… de desagravo … de sei-lá-o-que. Então, Guardou algumas garrafas vazias do seu precioso scoth Blue Label, mais calmo, chamou a empregada, deu-lhe ordens expressas para arrumar a casa toda e não deixar nenhum vestígio da festa. Foi, a pé, até a vendinha da esquina, comprou algumas garrafas de um uísque ordinário. Transferiu o líquido ordinário para as maravilhosas garrafas de velho scoth e colocou uma farta dose de óleo de riso junto com o tal uísque ordinário. Guardou-as no fundo falso do barzinho com se fossem originais. E comunicou ao Candinho que iria para a capital até quando as suas netas decidirem voltar para suas casas. Assim, elas ficariam mais a vontade e ele que era um velho bobo e chato não atrapalharia as férias de suas queridas netas. Até uma lágrima de tristeza rolou pelo velho e marcado rosto de Comendador. E lá se foi o alquebrado velhinho…

As moças só voltaram para à casa depois que souberam que o velho fora embora para à capital. A casa já estava totalmente limpa, cheirosa e arrumada… nada… nenhum resquício do tal lual. Mas mesmo assim, entraram com a arrogância dos vitoriosos e a altivez dos conquistadores. Foi Tabhata que primeiro brindou a vitória com palavras:
– Não é que o velhinho foi embora mesmo!!!
– Já foi tarde – sentenciou Ana
– Então, rei morto, rei deposto. O castelo é nosso!!!! – gritou Márcia

Logo, baniram os cd’s de músca clássica do velho para o porão e colocaram, no último volume, o puro pop-rock nacional, chamaram os namorados do momento, regaram, com farta doses do uísque batizado a festinha da vitória. Nem mais lembram do velho, o ambiente está muito amimado e as garrafas do uísque batizado só acabando. Lá pelas tantas, foi o namorado de Cláudia, que com um súbito pulo, solta dos braços da moça e pálido, suado frio e quase sem voz anunciou que teria de ir embora, em regime de urgência. Assim, em seqüência, foi Patrícia que saiu correndo para o banheiro… mas em alguns minutos dos todos os banheiros eram disputado à tapa. Tabhata e o namorado da Ana brigavam pelo ultima vaga. Observou, então, uma estranha e engraçada dança dos banheiros. Foi um entra e sai, quase perpetuo, a noite toda.

Pela manhã, o rei que todas julgavam morto, penetrou no seu castelo com o verdadeiro sorriso da vitória… Encontrou as meninas recolhidas nos seus quartos pálidas, sem forças e todas com grandes olheiras roxas que denunciavam que haviam passado à noite toda naquela estranha dança dos banheiros. Teresa, do seu leito, viu o Comendador e reuniu, com muito esforço, as suas últimas forças para lançar um olhar de ódio para o Comendador. Esse nem ligou, pois estava olhando para a Tabhata sair correndo para o banheiro. Assim, com o seu original scoth “Blue Label” debaixo do braço, foi para o ensolarado e sacrossanto terraço curtir aquela linda manhã de verão…

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Um comentário

  1. AMEEEEEEI!!
    Kerido meu!
    Vc é muito bom!
    Cris Brandão

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