NOVENTAS ANOS…

Observando minha bisavó e minha sobrinha mais nova, há um hiato de tempo de quase um século. Vendo as duas juntas, posso imaginar como foram, como são e como serão diferentes as vidas inseridas no mundo tecnológico que vivemos.
O mundo que minha bisavó nasceu, cresceu e lutou para criar sua grande família não existe mais. Um mundo onde não tinha quase nada, em ternos tecnológicos, do que existe hoje. Mas, um mundo que tinha um contato humano maior, onde as relações eram mais estreitas e duradouras. Um mundo mais estático, um mundo com poucos e difíceis meios de comunicação. Talvez um mundo mais humano, não por benevolência, mas; sim por necessidade.
Em contra-partida, penso no mundo que minha sobrinha nasceu e cresce. Um mundo altamente tecnológico, onde quase tudo está à disposição. Em mundo que não temos de buscar informações, mas sim; meios de selecioná-las. Um mundo de grande “facilidades”; onde individual é maior que o coletivo.

E esse hiato de tempo é somente de noventa anos!!

Os grandes avanços tecnológicos, que mudaram a face do mundo, rumo da humanidade e as inter-relações da sociedade, são de inegável importância em vários campos do conhecimento humano. Na medicina, possibilitaram novas terapias, novos remédios, e que uma parcela da sociedade viva mais e melhor. Nos meios de comunicação, possibilitaram que a informação, em tempo real, chegue em todo lugar. Todo mundo sabe de todo mundo em qualquer lugar do mundo. Em nome do conforto, temos todo um aparato tecnológico dentro de casa. Aliás, são esses avanços que possibilitam minha bisavó, aos noventa três, ter uma vida com relativa saúde, ter uma lucidez e saber, sem sair da sua casa, tudo que acontece no novo mundo que vive sua velhice. Ou fazer minha sobrinha, que nasceu prematura, vencer a seleção natural das espécies.
Parece que só houve vitórias. O mundo ficou melhor, mais bonito e mais fácil de viver. Essa é a ilusão que o novo mundo vende para a humanidade. Todos querem ter de tudo, querem ser celebridades e querem ser “plugados”. Escondem a massa de excluídos tecnológicos. E criam cativeiros onde estamos presos nos grilhões dos chips.
Há, sem duvidas, um excesso de informação, gerando um grande estresse, pois não podemos absorver tudo e o tempo todo. Ficando, assim; a mercê de falsas facilidades, para suprir a sensação que estamos perdendo o nosso tempo. Assim, assumimos várias funções que não são nossas… sem perceber viramos funcionários não remunerados das instituições bancárias, pois usamos o nosso tempo, o nosso computador, os nossos impulsos e nossos conhecimentos para realizar transações que eram exclusivamente da competência dos reais funcionários das casas bancárias E o que é pior, pagamos para ser funcionários deles ao pagarmos mensalmente as absurdas e abusivas tarifas.
Viramos vendedores de lojas virtuais, roteiristas de programas de televisão e editores de jornais virtuais. A nossa casa virou uma espécie de entrepostos das grandes companhias telefônicas, pois, nessas quase não há mais atendimento “corpo-a-corpo”. Quaisquer informações, que aliás são quase sempre mal dadas, têm que ser através dos nossos próprios recursos e meios.
Perdermos o contato direto, som humano de um bom dia, o olho-no-olho. Perdemos as inter-relações, a integração humana e vontade de conhecer outras pessoas. Estamos assumindo várias funções além da nossa real. Com isso, temos que trabalhar mais para manter esse aparato tecnológico ao nosso alcance. Temos que renunciar nossa qualidade de vida e nosso tempo livre para assumirmos essas múltiplas funções, para trabalhar mais e para termos mais dinheiro. As ditas facilidades estão se transformando num cativeiro…
Noventa anos…

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